O Foundation Progamme começou no Reino Unido há algum tempo atrás com o intuito de nivelar todos os médicos recém-formados, garantindo um nível mínimo de capacidade técnica entre todos os profissionais, seja ele formado em Cambridge ou no interior da Escócia. O projeto foi desenvolvido de forma que ao finalizar o curso de graduação lá (que dura 5 ou 6 anos a depender de onde você estude) você recebe uma provisional license. Ou seja, eles formam mas não irão receber a licença completa até o término dos 2 anos do Foundation Program, FY1 e FY2.

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A estrutura dos “Foundation Years” parece um pouco com o internato no Brasil. São dois anos divididos em diferentes rodízios de 3-4 meses em especialidades diferentes, sendo algumas opcionais e outras obrigatórias, com a diferença básica que você não é mais estudante e sim um profissional com salário. No momento da aplicação, os recém-formados locais aplicam para diferentes programas pré-definidos a depender da especialidade que ele quer seguir como carreira.

A primeira divisão básica que ocorre aí é se o médico irá seguir na Medicina (Medicine, o que corresponderia a Clínica) ou Cirurgia. Posteriormente, pra você aplicar em uma determinada área de especialidade pode ser que seja exigido que você tenha feito um rodízio determinado durante o seu Foundation Program, por isso nesse momento você já deve ter em mente mais ou menos que carreira irá seguir.

Se você escolher a parte clínica, poderá aplicar nos diferentes empregos disponíveis na área que em geral são atividades de enfermaria (ward) nas diferentes especialidades médicas, reumatologia, geriatria, cardiologia, etc. Algumas enfermarias ou rodízios também são definidos por especialidades, como AVC hiperagudo, AVC (as stroke units), unidades coronarianas, diabetes, etc. Nessa fase inicial, em uma frequência muito menor você irá ter atividades de ambulatório (outpatient clinic) como é comum no Brasil. Essa parte geralmente fica somente com os médicos já em treinamento especialista (ST1-ST9), os registrars. Os empregos basicamente irão basicamente cobrir atividades de enfermaria, com a particularidade de cada especialidade.

Se você escolher seguir a via da cirurgia, deve aplicar nos empregos disponíveis pra aréa: cirurgia geral, ortopedia, obstetricia (que eles chamam de Obs&Gyn [Obis-en-Gaini haha). Isso não impede que você tenha um dos rodizios na aréa clínica, na realidade, é obrigatório que um dos seus rodizios não seja na area cirurgica, um opcional. Geralmente, as atividades da cirurgia envolvem as enfermarias cirurgicas, mas também participar de cirurgias mesmo. Aqui existe uma diferença importante com relação ao Brasil, já que durante o nosso internato participamos de cirurgias instrumentando e fazemos isso exaustivamente, até por vezes participando da cirurgia. No Reino Unido, um médico que escolheu um emprego cirurgico irá vestir o roupão cirurgico pela primeira vez na vida dele, ou pelo menos terá tido minima experiencia em centro cirúrgico. Portanto apesar de que ele é um médico formado em um emprego de cirurgia, ele está nesse emprego no nível júnior que equivale a iniciar instrumentando, participando muito pouco das cirurgias. No caso da obstetricia de forma semelhante, enquanto no Brasil é comum que durante o internato façamos diversos partos normais sozinhos (e em alguns casos até uma cesarea).

A emergência (A&E – Accident and Emergency) é um pouco diferente, e talvez um pouco mais parecida com o que estamos habituados. Os rodízios nessa área são basicamente atividades em pronto socorro, onde você atende os pacientes da porta e discute com os preceptores. De forma semelhante, na pediatria você realiza atividades em emergência e clinica, mas quanto a especificidade de cada especialidade vou tratar em outro momento.

Isso tudo gera uma pergunta comum, então o Foundation Year equivale exatamente ao nosso internato? A resposta é que não necessariamente. Lá, apesar de que ainda com uma autonomia muito baixa, os FY1s e FY2s já são médicos, com carimbo, e portanto o nível de responsabilidade já é diferente com relação a um aluno de graduação. Eu costumo dizer que um junior doctor lá está um nivel acima de um médico que terminou o internato no Brasil, no entanto ainda muito abaixo de um residente brasileiro. Mas não há duvidas de que pra um médico recém formado brasileiro, que pode no dia seguinte a sua formatura ser o único plantonista em uma UTI, ou em uma UPA onde ele atenderá 50-60 pacientes sozinho, o nível baixo de autonomia de um junior doctor é ainda um pouco estranho.

Não é atoa que durante a nossa revalidação, tendo em vista o nosso internato (que configura como um estagio, internship), nós entramos direto no segundo ano o FY2. Mas quanto a isso irei tratar separadamente quando falar de revalidação.

Mais informações:

http://www.foundationprogramme.nhs.uk/

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