Passado o primeiro ano de FY1, você entra no FY1 que se estrutura de forma semelhante ao FY2. Você irá realizar os mesmos rodízios do 1 ano, só que agora em um nível maior de cobrança. As diferenças não sejam bem estabelecidas, variando de local para local. Se voce está em uma unidade que a equipe é pequena (poucos profissionais de diferentes níveis) você será cobrado um pouco mais. No entanto no geral, no FY2 voce observa somente um aumento na autonomia.

Com relação a emergência, por exemplo, no FY2 você pode ficar responsável por reavaliar os pacientes e ter autonomia em dar alta para aqueles pacientes que estão em condições de alta. Ao admitir um paciente, você será cobrado um pouco mais em acertar as coisas que você faz e pensa sobre um caso, o que não quer dizer que você ainda não estará supervisionado. Todos os casos que voce atende na emergencia, por exemplo, voce deve ainda passar para um sênior antes de tomar alguma conduta (fora aquelas intervenções que você tem que tomar imediatamente, que são raras).

Você começara a dar plantões noturnos e on calls, que é um dos grandes saltos do Jr. doctor (as vezes você começa a fazer isso no FY1). Isso porque nessas situações, você fica com um beep que é dado as enfermarias de todo um hospital, e  ficará responsável pelas intercorrencias, CRASH team, ou quaisquer demandas de várias enfermarias ao mesmo tempo. Basicamente, você fica responsável por qualquer problema que ocorra. Seja uma prescrição que precisa ser atualizada, seja um exame que não foi solicitado e é necessário para a manhã seguinte, ou um paciente que instabilizou  precisa de atendimento imediato.

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Em um livro muito interessante, na minha opinião uma leitura obrigatória pra quem quer revalidar (This is Going to Hurt), Adam McKay fala um pouco sobre esses plantões. Geralmente, você fica com um beep e recebe inúmeras chamadas para responder a essas intercorrências, e cabe a você definir as prioridades e lidar com o controle de onde voce vai primeiro, qual dessas requer que voce ligue para um sênior, ou para o consultant. No plantão, geralmente o FY2 fica na linha de frente e o Registrar/SHO fica disponível para caso você precise ligar pra ele. Se o registrar também tiver duvida, ele pode ligar para o Consultant on call que, se necessário, pode ser chamado para ir ao hospital.

No entanto as vezes essa intercorrência é uma parada cardiorespiratória que você deve liderar, ou então um paciente que está dispneico e você tem que avaliar. Geralmente, mesmo como FY2, você nunca será o medico de mais alta hierarquia  daquele local. Portanto de fato, nos casos de maior gravidade, sua responsabilidade é fazer o atendimento inicial até chegar um senior. Um paciente com pneumonia que esta dispneico por exemplo, você deve fazer o atendimento inicial, auscultar, ver a saturação, pedir pra fazer um cateter e ver se o paciente responde. Dificilmente você terá que intubar um paciente, e na realidade é responsabilidade sua identificar esses casos e chamar o senior e não deixar o quadro chegar nesse nível sem ninguém estar ciente.

Com relação a paradas cardiorespiratorias, geralmente não é esperado que você já domine liderar uma parada sozinho inicialmente. Geralmente quando tem um código azul (blue code), toda a equipe é acionada e precisa sair correndo pra encontrar o paciente que está parado. Nesse momento, pode ser que você seja o primeiro a chegar na cena. Novamente, sua obrigação será iniciar as compressões, pedir que tragam o carrinho de parada, mas muito possivelmente algum sênior ira chegar

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Conclusão

Considerando isso tudo, acredito que com a formação e experiência de recém formados no Brasil nos médicos brasileiros estamos com alguma vantagem. Como médico recem formado, se você trabalhou na UTI, voce provavelmente terá liderado dezenas de paradas na sua vida, ter feito milhares de acessos centrais, intubação, dreno de tórax e etc. Acredito que no Reino Unido, essa menor responsabilidade nos dá uma tranquilidade pra nos preocuparmos com a adaptação geral ao processo e todo o processo de transição, sem que precisemos ficar inseguros quanto a nossa capacidade técnica como médicos.

Chegando lá, você será cobrado a ser capaz em realizar um acesso venoso periférico, saber fazer um relatório de alta, uma admissão, saber passar um caso com clareza, fazer um ECG, etc. É claro que todo o conhecimento de Medicina que você adquiriu na sua formação ainda será útil. No entanto é importante você abrir os olhos para entender que terá que dar esse passo atrás no inicio. Algumas pessoas que vão para o Reino Unido se frustram com essa barreira, principalmente aqueles que já formaram a muito tempo, já terminaram residência, e se deparam com um sistema ontem você não toma nenhuma decisão sozinho, por mais simples que ela possa parecer.

Por outro lado, você chegar em um sistema de saúde completamente diferente, e ser cobrado em um nível de responsabilidade menor do que o que você está acostumado é confortante de certa forma, no sentindo de te dar tempo e espaço pra dar um passo atrás, e aprender do zero os básicos de um sistema estrangeiro completamente diferente do que você conhece. Já ouvi de médicos estrangeiros que, por não dominar essas “besteiras” acabam atrasando todo o sistema, dificultando a vida de todos na enfermaria. Você não quer ser esse médico, que atrapalha o serviço de todos, principalmente se você é estrangeiro em um país que você acabou de chegar e receptividade já é uma das coisas que vai impactar de forma mais importante na sua vida pessoal. Portanto, fazer esse feijão com arroz bem feito é o mínimo que voce pode fazer para garantir uma transição mais tranquila.                                                             

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