Essa semana foi a “Black Wednesday“, dia em que os júnior doctors iniciam as atividades nos hospitais, quando os FY1 se tornam SHOs e os non-trainees iniciam (ou renovam) os seus novos contratos de trabalho. Eu terminei um ano como Clinical Fellow em um hospital distrital na região de Airdrie (na Escócia), e comecei o meu segundo emprego novamente como Clinical Fellow em um hospital de referência da cidade de Glasgow.

Esse período é de muitas dúvidas, mas também muito prazeroso quando todos juntos concluem as atividades e passam a página para a próxima etapa. Essa também foi a data em que finalizei o meu primeiro ano (11 meses a rigor, por conta de atrasos do visto) trabalhando no Reino Unido após revalidar o meu diploma. Pensei em compartilhar com vocês as reflexões que vêm ao terminar um ciclo, as conclusões que tive sobre esse ano, as dificuldades, surpresas boas e ruins, e tudo mais que muitos podem passar também em uma jornada parecida.

Dividi essa postagem em diferentes aspectos para que possa aprofundar mais em cada etapa, e para que não termine escrevendo somente um texto muito longo (erro que cometi em outros tópicos rs). Em outro momento irei também irei detalhar o meu processo iniciando um segundo emprego e acredito que essas postagens irão se complementar.

A adaptação inicial

Chegando no UK eu já havia escrito esse site, e já havia passado inúmeras horas lendo sobre a atividade de júnior doctors no UK, consumindo tudo que existia na internet sobre revalidação para o UK sob o ponto de vista de estrangeiros. Vi diversos documentários sobre o assunto, com a expectativa de que isso tornasse a minha transição mais tranquila, e no meu primeiro dia de trabalho estava confiante de que entendia muito bem a rotina médica no UK. Isso aconteceu em certo grau, mas somente para 10% do que o meu dia-a-dia correspondeu de fato.

O que torna o processo inicial díficil é principalmemente (e quase exclusivamente) porque no começo você não saberá os processos mais básicos que existem dentro do hospital, principalmente porque viemos de outro país. Os FY1s também começam bastante perdidos, mas eles tem o benefício de ao menos ter observado as rotinas durante a faculdade de Medicina. Enquanto a parte médica, o conhecimento técnico, seja algo que não surpreenda tanto (e volto a reiterar, acredito mais do que nunca que a nossa formação médica é sim muito boa e em alguns aspectos melhor do que aqui no UK), o que torna o início bastante desafiador são pequenos detalhes. Já falei sobre essas coisas em outros posts mas já que estamos aqui segue abaixo uma lista de pequenas coisas que você tem que aprender “no tranco”:

Solicitar exames de radiologia (para pacientes internados e a nível ambulatorial), prescrever medicamentos, como participar de um ward round com um Consultant, como fazer o ward round e as reviews do paciente sozinho quando o Consultant não está presente, como escrever a mão uma review em um prontuário, como se relacionar com o Consultant, como se relacionar com membros mais sênior ou júniors da equipe e com a equipe de enfermagem, como solicitar exames laboratoriais, como coletar amostras de sangue, como realizar um acesso venoso periférico, onde encontrar os materiais para procedimentos, como se comunicar com os pacientes, como se comunicar durante as handovers, como se organizar durante os plantões de out-of-hours e nos plantões noturnos, como realizar uma admissão, onde ficam as coisas no hospital, como dialogar com outras especialidades, como realizar uma prescrição de alta, como escrever uma carta de alta hospitalar, como manejar um paciente grave na enfermaria, como escalar um caso grave para um sênior, como dialogar com a equipe da emergência e finalmente como trabalhar em inglês.

Você observará que muitas dessas coisas não são exclusivas da transição para outro país, mas para qualquer início em um novo emprego. Além disso esses detalhes representam desafios até para médicos “locais”, ou para médicos iniciando uma residência no Brasil. Apesar disso não pude deixar de perceber que houve uma intensificação no choque dessa transição porque não havia me formado aqui no Reino Unido. Começando o meu segundo emprego estou sentindo muitas dessas dificuldades novamente por ter mudado para um hospital em uma região diferente, apesar de que dessa vez a transição está sendo muito mais rápida. Por isso o primeiro emprego no UK é tão importante, e reitero a importância de começar com calma em níveis mais júniors antes de entrar em escalas de plantão como sênior ou entrar no specialty training.

Essa adaptação pode ser um pouco “overwhelming”, e vai depender muito da sua experiência e maturidade (pessoal, e “clínica”). No meu caso em alguns momentos me senti “sufocado”, mas posso garantir que esses momentos foram raros. No início você nota uma evolução diária nesse sentido, e após 1 ou 2 meses as coisas já estão muito mais tranquilas. Também contei com a ajuda de colegas sempre que precisei pois a cultura médica no UK é de sempre pedir e oferecer ajuda aos seus colegas ao invés de tomar as rédeas sozinhas. Posso estar passando uma mensagem diferente da que eu quero com as coisas que estou falando, mas na verdade eu imaginei que seria pior do que foi de fato. Posso garantir que é um processo natural e inevitável (afinal você está vindo de outro país) e não há nada demais nisso. Acredito até que, por conta do nosso sistema de ensino parecido com o americano e o britânico, o choque é muito menor que outros colegas estrangeiros. É importante que você tenha um certo nível de cobrança consigo mesmo para aprender as coisas que são devidas, mas sempre com maturidade para entender que isso é normal do processo, e com humildade para pedir ajuda quando necessário. E a ajuda sempre vêm para quem pede (em Hogwarts rs brincadeira) no NHS, onde a prioridade sempre é a segurança do paciente.

Como tornar a transição mais tranquila?

A experiência que tive provou para mim que tentar aprender essas pequenas nuances que tornam o dia-a-dia inicial desafiador a distância é muito difícil, e hoje até acho que realizar um estágio por um período antes de começar a trabalhar pode ser valioso (mas ainda assim não é algo obrigatório, e que vai custar um pouco caro). Por isso tive bastante ansiedade para entendar entender muitas coisas enquanto estava no Brasil, quando só recebi essas respostas quando comecei a trabalhar. E diga-se de passagem são coisas que você aprende muito rápido, mas somente na prática.

Acredito que a coisa mais importante para facilitar a sua entrada na rotina médica no NHS é garantir uma boa formação e enriquecer o seu conhecimento médico ao máximo. Ou seja, estudar. Assim chegando aqui você só terá dor de cabeça em se adaptar aos pequenos detalhes logísticos que envolvem trabalhar em um hospital com estrutura diferente do que a gente conhece no Brasil. Assim os seus colegas britânicos vão perceber que a sua dificuldade é somente com relação aos procedimentos, e eles terão muito mais empatia em te ajudar se você demonstrar sem um bom médico. Ainda mais, se durante esse processo você provar que pode ensinar muito a eles também você irá facilitar em muito o seu dia-a-dia e das pessoas que estão ao seu redor.

O processo de revalidação dura em média de 12 a 18 meses no mínimo, e mesmo que você não tenha tido uma boa formação você pode utilizar esse período para intensificar os estudos. Se você ainda está na faculdade, você tem ainda mais tempo ao seu dispor e pode aproveitar muito bem o seu internato para ganhar experiência. Se você trabalha em emergência pode dedicar um tempo maior para O bom da Medicina é que ela é muito justa, e aqueles que estudam consistentemente recebem os frutos diretamente e estudar é um investimento não só se você está revalidando, para para a sua carreira a longo prazo (no Brasil ou no UK).

Outras coisas mais gerais são:

  • Se certifique que você conhece o seu hospital antes de começar o seu emprego, visitá-lo em uma ocasião (ou mais) antes de começar as atividades pode te ajudar muito nos primeiros dias. Se possível peça um mapa, pergunte onde fica o quarto dos júnior doctors, onde ficam os locais onde você irá trabalhar, as enfermarias, etc. Você pode até se apresentar na enfermaria antes do início oficial das atividades para se apresentar na equipe e observar as atividades por 1 ou 2 dias.
  • Invista no seu inglês. Quero tratar desse assunto com mais profundidade em outro momento mas o quão melhor for o seu inglês ao iniciar as suas atividades no UK, menos dor de cabeça você terá em se adaptar a rotina
  • Peça ao seu empregador tudo que você precisa saber antes de começar a trabalhar: a escala completa das suas atividades, quais sistemas são utilizados pelo hospital (por exemplo HEPMA para prescrição e alta, TRAKCARE para exames e manejo da enfermaria), a descrição das responsabilidades que você terá na enfermaria, em plantões ou em out-of-hours, além de todos os logins para os sistemas. Este último foi algo que me causou bastante problema nos dois empregos, e não recomendo a ninguém a dor de cabeça que é trabalhar sem ter acesso aos computadores ou aos sistemas de exames, prescrições, etc. .
  • Entenda o sistema. Nessa postagem fiz praticamente propaganda contra o meu site, mas eu acredito que aqui você possa encontrar muitas informações que vão te tornar mais habituado a como é o dia-a dia no NHS, como escrever em prontuário, além do relato de como foi meus primeiros dias, etc. Veja aqui a lista de postagens (:

Conclusão

Os primeiros dias e semanas trabalhando no UK foram bastante desafiadores, e muitos dos meus colegas brasileiros que trabalham aqui compartilharam sentimentos semelhantes, mas tome com um “pinch of salt” que tudo que registrei aqui foi a minha opinião quanto a minha experiência pessoal. Apesar dessas dificuldades, e que quando você se encontra naquele momento pareça que seja muita coisa pra se adequar ao mesmo tempo, é muito gratificante observar o seu próprio desenvolvimento dia após dia e esse período passa rápido. Para alguns pode durar somente alguns dias, para outros algumas semanas. Em geral para todos após 1 ou 2 meses os processos já são muito mais naturais e no grande esquema da sua carreira isso representará muito pouco tempo.

Boa sorte a todos!

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2 comentários em “Reflexões após um ano de trabalho no UK: a adaptação inicial

  1. Muito bom, Thiago, depois de ver seu blog comecei minha preparação. Estou no último ano da faculdade e se tudo der certo, obtendo o diploma já início o processo de revalidação.
    Abraço e boa sorte na jornada

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