Muitos de nós quando finalmente conseguimos uma oferta de entrevista (após todo o processo de revalidação, provas, visto, e uma longa tentativa de aplicação para diversos empregos) pensamos pouco em o que podemos pedir, exigir ou pelo menos questionar de um emprego. Em geral, principalmente aqueles mais novos e inexperientes (como foi no meu caso de certa forma), o processo de entrevista pode ser um pouco intimidador, e tentamos nos preparar para as perguntas que nos vão fazer, lemos todo o livro de preparação para entrevistas, relatos de colegas na internet, etc. Em breve inclusive estarei postando aqui um conteúdo sobre como se preparar para a entrevista.

Por outro lado, a entrevista é uma excelente oportunidade para conhecer um pouco sobre o seu emprego, o que eles esperam de você, e o que o hospital tem a te oferecer . Dois hospitais podem estar oferencendo duas vagas de emprego no mesmo nível (FY2, ST1, etc.), na mesma especialidade (General Medicine, A&E), mas serem atividades completamente distintas. Um hospital pode ter muito pouco suporte e a enfermaria que você for alocado ser uma enfermaria de reabilitação de Geriatria, sem qualquer oportunidade para aprendizado, e outro pode ser uma vaga em um hospital universitário com Consultants preocupados com a sua progressão de carreira.

Que coisas você precisa saber antes de começar um emprego?

Onde você irá trabalhar

Em geral aplicamos para um emprego em uma grande aréa, “A&E”, Clinica Médica, Cirurgia Geral ou Pediatria. Com exceção de emergência que em geral é bem straightforward onde você irá trabalhar (na emergência é claro, rs) você será alocado para uma enfermaria específica. No caso de Clinica Médica por exemplo, você pode trabalhar em enfermarias de Cardiologia, de Respiratório ou de Care of the Elderly. No caso de pediatria, você pode ser alocado em um determinado período para Neonatologia. Esse detalhe portanto pode fazer uma diferença grande na sua rotina.

Isso é importante porque as enfermarias diferenciam muito entre as especialidade com relação a carga de trabalho, perfil de pacientes, suporte em termos de número de júnior doctors e Consultants. Por exemplo, trabalho hoje em Respiratory Medicine uma enfermaria com perfil de pacientes um pouco mais graves, mas com muito suporte de Consultant (praticamente todos os dias tem ward round). Por outro lado é uma enfermaria muito interessante e serve como uma grande oportunidade de trabalho. Isso seria muito diferente se estivesse na enfermaria de Care of the Elderly, onde os pacientes são de baixa complexidade porém tem muito pouco suporte de Consultants, e as oportunidades de aprendizado são muito reduzidas. Na verdade nos hospitais algumas enfermarias de reabilitação envolvem quase nenhum raciocínio clínico na avaliação diária dos pacientes já que esses tem pendências com Occupational Therapy e Fisioterapia.

O seu salário e de quanto será o seu “banding”

Apesar de soar óbvio, é essencial saber de quanto será o seu salário e se isso está dentro do que é justo para aquele determinado nível de emprego. Tenho um colega que está trabalhando como SHO e não se deu conta que estava recebendo um salário de FY1 até quase 6 meses após começar o trabalho.

O salário base de um emprego nível SHO é por volta de £32.000/ano. Se você for incluído na escala de plantões e se o salário tem algum tipo de Banding, o que é o caso da maior parte dos empregos disponíveis, o seu salário aumenta em média em 50%, com um valor final de £48.000/ano. A diferença entre esses dois valores é muito grande e muda bastante o seu poder de compra e o que você poderá fazer com conforto no seu dia-a-dia.

Além disso, caso você opte por um emprego nível FY1, sem banding (o adicional que você recebe se entrar na escala de plantões) o seu salário estará abaixo do nível que é determinado para que você consiga tirar o visto de trabalho (valor que é por volta de £30.000/ano). Se você tiver um emprego FY1 que entre na escala de plantões e pedir para o seu empregador inserir no seu COS (certificate of sponsorship) o documento que lhe dá direito ao visto o valor com banding, você terá um salário acima do limite e portanto terá direito ao visto.

Se haverá período de shadowing

A parte mais desafiadora para nós brasileiros sem dúvida é o início por uma série de questões. Fora tudo que envolve a mudança para um novo país, a dificuldade em praticar a Medicina “em inglês” (por mais fluente que você seja), trabalhar no NHS exige um período de adaptação para entender os fluxos e as condutas.

Muita das coisas que ocorre no NHS como fornecimento de medicamentos, suporte de packages of care para cuidados em casa, district nurses, são coisas que não existem no Brasil portanto não entendemos como funciona o papel do médico nesse sentido. No Brasil estava acostumado a cuidar somente da parte médica e técnica do cuidado com um paciente, trabalhando no UK principalmente em enfermarias como COTE (Care of the Elderly, Geriatria) onde a parte mais importante é o cuidado funcional do paciente (suporte de fisioterapia, reabilitação e suporte a nível domiciliar ao paciente) outras coisas tornam-se tão importantes quanto a prescrição de medicamentos e acertar um desafio diagnóstico.

Nesse sentido, ter um período de shadowing é muito importante. Isto é, um período onde antes de você começar o trabalho de fato você poderá ir para a enfermaria que você irá trabalhar e observar as atividades para que você se entenda pelo menos os detalhes mais simples de como é o funcionamento do setor que você vai trabalhar. Isso vai facilitar a transição para um novo sistema e gerar menos estresse e menor risco para você e seus pacientes. Lembre-se que o primeiro dia de inicio do “ano acadêmico” dos júnior doctors no UK é um dia com aumento na mortalidade nos hospitais, justamente por conta do número de médicos se adaptando ao mesmo tempo em que tentam prover cuidado aos pacientes.

Este shadowing pode ser observando as atividades da enfermaria ou dos plantões. Por exemplo, eu não tive shadowing e comecei na enfermaria de cara sem ter tido oportunidade de começar antes com um período observacional. Foi um pouco difícil pois tive que aprender “no tranco” a solicitar exames de imagens, prescrever medicamentos, além de entender como funcionava o dia-a-dia da enfermaria , o que foi um pouco estressante mas manejável sem riscos de causar danos maiores.

Por outro lado, a minha diretora médica do hospital que controla a escala, não me colocou em plantões sozinhos até o meu terceiro mês de trabalho. Os primeiros longdays, finais de semana, e plantões em MAU, que fiz foram todos com outro médico o que foi um pouco redundante pois nem sempre a quantidade de tarefas era suficiente para 2 pessoas. Porém, isso me deu oportunidade de me preparar (psicologicamente e no sentido de entender que tipo de situações encontraria e o que precisaria estudar, por exemplo) antes de começar a dar plantões sozinho, o que é o maior desafio eu diria quando trabalhamos em um emprego de enfermaria no UK. Os plantões tendem ser a parte mais difícil e desafiadora, ainda que seja uma oportunidade excelente de aprendizado.

OBS1: Eu perguntei na entrevista para a coordenadora, que veio a ser a pessoa que não me colocou em plantões sozinhos, se eu teria um período da shadowing. Na ocasião, apesar de ter um receio de não me demonstrar preparado e correr o risco de não conseguir o emprego, eu disse que tinha muita experiência em trabalhar em emergência mas acreditava que por ser um sistema de saúde completamente diferente seria mais adequado se eu tivesse um período de adaptação no UK. Não só ela concordou como disse que não me colocaria na escala de plantões sem nenhuma experiência no NHS. Se ela já tinha isso em mente ou teve a ideia após eu ser sincero quanto ao que eu acreditava ser seguro para mim eu não sei, mas é sempre bom perguntar!

OBS2: O shadowing pode ser pago ou não. Em geral as pessoas não gostam muito da ideia de fazer um shadowing pago, e muitos hospitais incluem uma semana de shadowing pela qual você será pago normalmente. Pessoalmente eu não tive a oportunidade de ter um shadowing nem de graça, e não me incomodaria se isso fosse o caso pois acho que o benefício pessoal é muito maior

Se você entrará na escala de plantões

Saber se você entrará na escala de plantões determina muitas coisas, dentre elas o seu salário como visto no parágrafo anterior. Além disso determina sua carga horária, pois um trabalho que não entra na escala de plantões é um trabalho de 09:00am às 05:00pm de Segunda a Sexta, sem comprometimentos no final de semana ou no periódo da noite.

Chegando no UK e conseguindo um emprego que não envolva plantões pode ser muito bacana, dando uma oportunidade a você de ter uma transição mais tranquila, principalmente se você não tem muita experiência clínica ou não se sente muito confiante em lidar com pacientes sozinho ou sem suporte todo o tempo.

É importante notar que a maioria dos empregos que são oferecidos envolvem entrar na escala de plantões. Uma vez que os postos de júnior doctors e as escalas de plantão precisão ser completas, se o hospital está te contratando provavelmente os coordenadores tem vagas que precisam ser ocupadas e eu acredito que na maior parte das vezes entraremos na escala de plantão. Porém, alguns empregos são mesmo somente de 9:00am-5:00pm SEG-SEX, e também já li relatos de pessoas que pediram para não entrar na escala de plantão e isso foi acatado pelo coordenador do hospital em forma de acordo tranquilamente. Acho que se você se fechar para esta possibilidade e não aceitar ou pedir para não entrar na escala de plantões pode restringir bastante quanto aos empregos que você terá acesso. Isso pode dificultar um pouco alcançar o seu primeiro emprego no UK, por outro lado é algo que certamente é possível com a pesquisa necessária.

Se você terá uma study budget/study leave

Os trainees (aqueles que tem training jobs) tem acesso a dentre algumas regalias (como e-portfolio, acesso às aulas dadas no hospital) direito a um study budget e um study leave por ano. O study budget em geral é um valor (£400-700/ano) para você pagar cursos (como ALS, BASIC, etc), testes (como MRCP, por exemplo) ou para pagar viagens e inscrições em congressos. O study leave são dias de folga que você pode tirar para pode ir para essas atividades, que são dados ao trainee caso eles sejam solicitados com alguma antecedência. Em geral servem até como um dia a mais de folga, que você não precisa estar na enfermaria.

Se você terá direito a isso ou não em um non-training job/LAS, vai depender do seu hospital. Digo por experiência própria que estava feliz em ser aceito em um emprego independente disso, e não pensei nisso antes de começar a trabalhar. No entanto tive que fazer a inscrição para o ALS que custou £600, um valor muito grande mesmo com o salário que recebemos aqui, além de ter que ter marcado no final de semana e tirado um dia das minhas férias para poder fazer esse curso. Acabou sendo um pouco frustrante ver isso, mesmo trabalhando na enfermaria como todos os outros trainees e por vezes tendo que cobrir escala quando ocorrem furos, estes estão em study leave, etc. Novamente, pode ser que perguntar isso na enfermaria seja interessante e mostre aos empregadores que você está ciente e prestando atenção a esses detalhes, que financeiramente podem fazer uma diferença muito grande uma vez que você já está morando no UK e com contas para pagar.

O que os empregadores estão esperando de você em termos de experiência

Não diria que isso necessariamente é uma pergunta, mas algo que você precisa observar e tentar identificar dos entrevistadores. Como já disse anteriormente, o que se espera de um Clinical Fellow depende bastante e acho que cabe a você ser bastante sincero e direto no momento da entrevista sobre a sua situação no que se refere a experiência com o NHS ou sua experiência clínica prévia. Existem Clinical Fellows no meu hospital que entram na escala de UTI como os outros registrars (Specialty Trainees), assim como eu entrei como um Clinical Fellow em uma escala igual a de um FY2.

É importante então deixar claro na entrevista caso esse seja o seu primeiro emprego no UK que você não tem ainda experiência no Reino Unido e as limitações que isso traz. Isso não impede você de reforçar os seus pontos fortes, dizer a experiência que você tem no Brasil (seja dando plantões de enfermaria, seja na residência). É muito importante aqui não mentir ou tentar maquiar e sugerir que você tem uma experiência maior que você não tem. Isso porque isso pode te colocar numa posição em que você é aceito para um emprego muito mais sênior, e caso alguma coisa aconteça nesse contexto (por exemplo você cometa um erro médico por falta de experiência técnica ou do sistema) você não terá justificativa se tiver aceitado um emprego em um nível maior que você deveria.

  • Como posso saber então, o que o empregador espera de você?

Algumas coisas eu acredito podem servir de exemplos objetivos para entender o que o médico que está te recrutando espera de você. Dentre eles: entrar na escala de plantões, entrar na escala de plantões sem shadowing, entrar na escala de HDU (high dependency units, que são quase como semi-intensivas), entrar na escala de registrars ao invés da escala de SHOs. Você pode ainda ser mais direto, e perguntar diretamente a eles o que eles esperam de você! No UK os médicos gostam de profissionais seguros que não se arriscam, e fazer essa pergunta ou tentar deixar isso claro pode até te dar pontos positivos na entrevista demonstrando que você entende a importância dessa diferenciação.

Onde buscar essas informações?

Grupo do Facebook – IMGs in the UK

O grupo do Facebook IMGs in the UK hoje tem 89.000 membros, e esse grupo vem há anos servindo de fonte de informações não só com relação aos empregos mas a todos os aspectos da revalidação. São tantas pessoas que, ao longo de vários anos, é muito provável que alguma dúvida que você tenha sobre todo esse processo já tenha sido discutido nesse grupo. Portanto uma pesquisa adequada nesse grupo é esclarecedor para a maioria das coisas, para as outras você pode fazer uma pergunta você mesmo. De fato, muita das coisas que eu posto no site e das coisas que aprendi durante esses últimos anos foram frutos de pesquisa nesse grupo que é moderado por Omar Alam e Naseer Khan.

É muito comum as pessoas nesse grupo postarem perguntas sobre como é a experiência em um determinado hospital, se eles dão o suporte necessário, se vale a pena trabalhar nestes locais basicamente. Você pode inclusive encontrar pessoas que trabalham no mesmo setor que você está aplicando, servindo como uma fonte direta de informações sobre aquele emprego. Os grandes hospitais terão mais informações, por outro lado hospitais distritais em geral são mais difíceis de encontrar informações sobre.

Messly

O Messly é um site com reviews sobre determinados hospitais, feitas por júnior doctors. Você só consegue acesso ao site após conseguir o seu número do GMC, portanto não é possível ter acesso ainda no começo do processo de revalidação. Quando finalmente consegui acesso ao site percebi que as reviews não eram assim tão completas e muitas pareciam serem feitas pelo próprio hospital, então fica o aviso quanto a isso. De qualquer forma vale a pena dar uma olhada.

Entrevista de emprego

A entrevista de emprego, apesar de ser curta, é a melhor oportunidade para perguntar essas coisas. As pessoas que realizam as entrevistas em geral são membros do departamento de recursos humanos do hospital, ou os Consultants que supervisionarão o seu trabalho na enfermaria. Portanto eles em geral terão uma ideia muito boa sobre o que você estará fazendo e sobre o que você tem direito, sendo a entrevista oportunidade excelente de perguntar diretamente para eles. De certa forma, ao responderem essas coisas na entrevista ele estarão se comprometendo posteriormente a oferecer essas coisas. Por outro lado se você nem perguntar pode ser que eles digam que em momento nenhum deram garantia dessas coisas, principalmente porque aplicamos para um emprego non-trainee, que em termos de garantias tem muitas poucas coisas.

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