A palavra “On-calls” seria o mais próximo do que conhecemos por “plantão” no Brasil. Em uma postagem escrita no período da criação deste site, eu descrevia plantões em geral como “Locum“. Acho que é oportuno corrigir isso, uma vez que na realidade Locum se refere a qualquer tipo de atividade realizada de forma temporária. Portanto Locum pode ser de fato um plantão de enfermaria que você deu no final de semana, em que você recebe um salário por hora. Por outro lado, pode significar também um emprego de 3 meses em uma determinada enfermaria em forma de contrato temporário. O primeiro exemplo pode ser caracterizado como um plantão, já o segundo se encaixa em outra categoria completamente diferente apesar de ambos serem Locums.

On-calls por outro lado se refere a atividades em que você fica de sobreaviso, ou responsável por uma determinada atividade out of hours. Existem então alguns tipos diferentes de on-calls: ward cover (cobrindo enfermarias), weekend ward cover, night shifts, MAU (Medical Assessment Unit) cover e A&E. Eu separaria A&E das outras formas de plantão pois você só fará plantões na emergência (i.e no primeiro ponto de chegada no paciente no hospital), se o seu emprego for em A&E. Se você for contratado para uma vaga em General Medicine ou General Surgery, você não terá na sua escala nenhum dia de plantão de emergência.

Vale a pena ressaltar que a escala de plantão diferencia todos os médicos, do FY1 ao ST8, em 3 níveis diferentes e entender essa divisão facilita entender o funcionamento dos diferentes plantões. O nível 1 seria o plantão de FY1, o nível 2 seria o “plantão de SHO” que são feitos por um grupo maior de médicos FY2/Clinical Fellow/CT1-2/IMT1, e o nível 3 que são os plantões de registrar feito por ST3-ST8 ou pelos SHOs que são mais experientes e portanto em acordo com o hospital entram na escala de registrar (isso é uma minoria e exceção).

Quais são os tipos de on-call?

Ward Cover (Long days) – “Back of the Hospital”

O expediente habitual de um medico na enfermaria é de 9 as 5 da tarde, e isso vale para todos os junior doctors. Com exceção de empregos de cirurgia, onde em geral se começa mais cedo (às 8:00am) ou dos Consultants (que só aparecem na enfermaria para o seu ward round), às 5:00pm todos os médicos de todas as enfermarias vão para casa. Depois desse horário, existe uma equipe que fica responsável por resolver as pendências que ficaram para o período da noite ou para lidar com as intercorrências da enfermaria. No caso dos médicos, isso significa aqueles em Long days. Quando você está em longday você estará na escala de 9:00-5:00pm na enfermaria e após as 5:00pm até as 9:45pm de plantão de sobreaviso para todas as enfermarias (ou um número determinado de enfermarias se o seu hospital for muito grande) período em que você resolve as pendências que ficaram do dia ou as intercorrências que vem a acontecer. Geralmente você recebe essas ligações através de um pager, ou um telefone específico que é dado e passado entre os médicos de plantão.

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Sim, você receberá um pager. Estilo Grey’s Anatomy. Na prática é menos divertido que nas fotos que você vai postar no seu Instagram.

E que pendências/intercorrências são essas?

A depender do nível do medico, as pendências que são passadas variam de nível de complexidade e essa divisão nem sempre é tão objetiva, mas funciona mais ou menos da seguinte forma:

  • FY1 (primeiro nível):

Resultados de exames para serem checados, pacientes que precisam de um novo acesso periférico/coleta de sangue/gasometria arterial, prescrição de medicamentos/fluídos, avaliar laudos de exames a serem disponibilizados no período da noite (tomografias, radiografias de tórax, etc.). Quando um paciente apresenta alguma intercorrência menor (uma taquicardia, um quadro agudo de dor torácica), a enfermaria tende a primeiro ligar para o FY1 que é geralmente o primeiro elo de comunicação entre a equipe de enfermagem e os médicos mais sêniors (SHO ou Registrar). O FY1 irá ligar para o SHO caso ele não tenha segurança em lidar com o quadro. Os FY1s mais experientes tendem a avaliar o paciente de forma completa, ligando para o SHO somente quanto já realizaram a maioria das medidas iniciais. Em geral o FY1 é o médico do plantão que está mais ocupado, com uma infinidade de tarefas (de menor complexidade) para realizar. Por outro lado existem algumas tarefas de grande complexidade que ficam camufladas como pequena complexidade. Se torna então uma característica essencial do FY1 saber detectar os pacientes com potencial de complicação que precisam ser discutidos com médicos mais experientes ou que pelo menos precisam estar no radar da equipe para o risco de complicações durante o plantão ou durante a noite.

  • SHO (segundo nível):

O segundo nível na escala de plantão (onde a maioria dos brasileiros iniciará a sua carreira no Reino Unido) é composto por médicos de diversos níveis diferentes, basicamente os médicos que são mais sêniors que os FY1 e mais júniors que os Registrars. Em geral a função é lidar com todas as coisas que o FY1 não conseguiu resolver. Isto é, uma sonda vesical/acesso periférico que o FY1 não conseguiu passar, um paciente que o FY1 precisou avaliar mas está um pouco mais complicado. Em geral reavaliações medicas de pacientes um pouco mais doentes (um paciente com pneumonia que esta com desconforto respiratório, e a equipe da enfermaria acha que no período da noite ele pode piorar). O trabalho do SHO envolve com maior frequência reavaliações médicas: revisar, examinar e desenvolver planos (ou dar continuidade a planos desenvolvidos) pra um paciente um pouco mais doente. Em geral são pacientes que serão discutidos com o Registrar também, pois são mais complicados e com potencial de deterioração, mas em uma parcela significativa são coisas que você pode resolver sozinho. Na minha experiência, fazer uma avaliação minuciosa com os critérios básicos que se esperam de um SHO e então discutir o Registrar é a conduta mais adequada, e os sêniors estão sempre dispostos a discutir casos se você demonstrar que fez um plano inicial e uma avaliação primária completa e com os dados e questões relevantes já identificados.

  • Registrar (terceiro nível):

Com exceção dos plantões me unidades como a MAU (onde pode ter um Consultant de plantão in loco sempre), o registrar e o medico mais sênior no plantão. Por isso ele fica tanto com as coisas que nem o FY1 ou o SHO conseguiu resolver, ou ele ja recebe diretamente os pacientes mais graves para serem avaliados. Na maioria dos plantões o registrar também fica responsável por avaliar os pacientes na HDU (high dependency unit). O registrar pode entrar em contato com o SHO/Registrar ou Consultant da UTI, mas na maior parte dos casos ele é o medico mais sênior responsável pelo caso. Por outro lado muito do trabalho do registrar em um on-call se refere à questões admnistrativas: em fazer o manejo de leitos, avaliar que pacientes serão encaminhados para a UTI, ou terão alta da HDU para um leito na enfermaria habitual.


OBS: Aqui entra uma informação muito importante. Se você começar a trabalhar no UK como FY1/2, e progredir ate o nível de registrar, a transição para este nível de responsabilidade será natural como a dos outros médicos. Tentar apressar essa transição e ja entrar como registrar pode significar cair de paraquedas em um sistema completamente diferente, e ainda ser o medico responsável pelas coisas mais graves ou para lidar com questões administrativas que requerem entender o sistema e o fluxo de pacientes.

Ward Cover (“Back of the Hospital”) – Finais de Semana

A escala do final de semana funciona com equipe reduzida, onde a equipe da semana faz uma lista de handover com os pacientes que precisam ser avaliados pelo SHO/FY2 e uma lista de jobs para o FY1. Tanto para FY1s como para SHOs, esta lista em geral costuma ser um pouco extensa, mas uma quantidade de trabalho suficiente para ser finalizada naquele dia. Alguns dias podem ser mais tranquilos, e outros podem ser mais caóticos. De qualquer forma, no hospital em que trabalho pelo menos, existe uma cultura interessante de suporte e se você (seja FY1 ou SHO) não estiver dando conta outros colegas irão oferecer ajuda ou poderão ajudar se você precisar de suporte para terminar todos os jobs até o fim do plantão.

  • FY1

O FY1 fica responsável por atividades parecidas com a que ele desempenha um long day como citado anteriormente (acessos, prescrições, checar resultados de exames, etc.). No final de semana ele em um número grande de enfermarias (4-5) ao mesmo tempo, um número maior de enfermarias que o SHO me geral. Também como no longday, o SHO responsável pela enfermaria deve estar sempre disponível pra ajudar o FY1 nos problemas e nas duvidas que ele tiver. Muitos dos pacientes que o FY1 deveria avaliar somente se ele precisa de fluídos, na realidade é um paciente em choque séptico. Por isso como dito anteriormente, o FY1 adquire a habilidade de identificar aqueles pacientes que estão mais doentes do que parecia e cujo planos terapêuticos precisam ser “escalados” para os sêniors.

  • SHO no final de semana (“segundo nível”)

SHO de plantão fica responsável por realizar as reavaliações (reviews) dos pacientes que precisam de mais atenção na enfermaria, os que não estão nessa lista não precisam ser vistos pelo médico de plantão no final de semana (não é possível um médico só fazer a review de todos os pacientes de uma enfermaria). A equipe na sexta-feira faz uma lista de handover dos pacientes que precisam ser reavaliados, seja porque são pacientes mais delicados (p.ex: um paciente com sepse que iniciou recentemente o tratamento com antibiótico e precisa monitorar resposta ao tratamento) ou um paciente simples mas que precisa ser necessariamente reavaliado no final de semana (p.ex: um paciente com insuficiência renal precisando de avaliação diária de status volêmico). O FY1 ajuda o SHO realizando os trabalhos mais manuais, a priori a responsabilidade dos pacientes na enfermaria fica a cargo do SHO (na prática, o FY1 vai adquirindo mais experiência e responsabilidade com o tempo. É incomum mas um FY1 pode ter mais experiencia que alguns SHOs).

Se existem paciente recém admitidos na enfermaria que ainda não foram avaliados por um Consultant (por exemplo, um paciente admitido na sexta-feira a noite) o SHO de plantão provavelmente precisará reavaliar o paciente no sábado para dar seguimento ao caso. No meu hospital, por exemplo, existem 3-4 SHOs para dar conta de todas as enfermarias de Clínica Médica (a escala cirúrgica é diferente). Um fica responsável pelas enfermarias 1,2 e 17 por exemplo, enquanto outro fica com as enfermarias 14 pela manha e a tarde ele deve ir para a MAU. A divisão dependerá do hospital, de forma que fique balanceado entre os SHOs cada um ficando com pelo menos uma das enfermarias mais “pesadas”do hospital. No meu hospital por exemplo, a enfermaria 1 e 2 são mais tranquilas enquanto a 17 (Respiratory Medicine) é mais puxada.

  • Registrars no final de semana (terceiro nível)

Com relação aos Registrars, em geral são 2 por dia no final de semana. Um fica responsável pelo “front hospital” isto é avaliar os pacientes que estão sendo admitidos pela emergência ou encaminhados pelo GP, e o outro fica responsável pelo “back of the hospital“. O registrar responsável pelo “back of the hospital” no meu hospital avalia os pacientes da HDU (unidade de alta dependência, o que é diferente da UTI (ITU), talvez o que corresponde a uma semi-intensive). Além disso ele fica de suporte para todas as enfermarias, no caso de intercorrências graves ou coisas que o SHO não conseguiu resolver ou não se sentiu segurar para resolver sozinho.

  • Horário no final de semana

A maioria das escalas do final de semana são de 9:00am-5:00pm, mas pelo menos um SHO precisar ficar de plantão após as 5:00pm (como se fosse um long day no final de semana). Uma das escalas de plantão portanto (para ser mais especifico no meu hospital se chama WE3) ocorre de 9:00-5:00pm cobrindo 4 enfermarias, e de 5:00pm-9:45pm cobrindo todas as enfermarias (cobrindo o “back of the hospital“, nome que se dá a cobertura das enfermarias do hospital. Front of the hospital seria a emergência e MAU). OBS: Essa estrutura corresponde a forma como ocorre no meu hospital. Naturalmente em um hospital com numero maior de leitos totais ou leitos por enfermaria a estrutura vai mudar.

  • Arrest page:

No final de semana e nos plantões de longday todos os médicos de plantão ficam com um page que desempenha uma função diferente, mas que forma a equipe de de periarrest/arrest calls. Em caso de uma parada cardiorespiratória uma chamada de emergência especifica é feita, e a equipe é acionada para ir ao local imediatamente (independente de onde você esteja). Juntamente a equipe de plantão um anestesista comparece à chamada, assim como o médico da UTI, e membros da equipe (até um “contra-regra” cuja função é levar os exames de sangue ao laboratório!). Em geral as funções na equipe de periarrest/arrest calls são definidas no início do plantão e a divisão é um misto de preferência pessoal e experiência. Não é tão comum essas chamadas, mas ocorrem eventualmente.

Medical Assessment Unit (Front of the Hospital)

A Medical Assessment Unit é uma unidade que fica entre a emergência (A&E, ED department) e as enfermarias. Isto é, os pacientes são atendidos na emergência, onde a equipe do A&E determina se ele irá para casa ou precisará ser admitido na enfermaria. Os casos que serão internados sempre são avaliados pelo Consultant da emergência, que determina que aquele é um paciente que precisa ser admitido para continuidade do tratamento. O médico da emergência então liga para a MAU para encaminhar o paciente para admissão.

Os médicos na MAU, uma unidade separada mas bem próxima ao A&E, ficam responsáveis por fazer a admissão dos pacientes. A história clínica praticamente completa já é colhida na emergência e isso facilita bastante, pois uma vez na MAU o que aconteceu com o paciente já está mais ou menos esclarecido e o plano inicial (exames solicitados, por exemplo) já está encaminhado. Por isso em geral o plantão na MAU não é de muitas surpresas, essas ficam para o pessoal no A&E

A divisão de hierarquias na MAU também é menos óbvia que nos plantões de enfermaria. No meu hospital, FY1, SHOs e Registrars fazem admissão da mesma maneira. De forma geral os médicos mais júniors sempre poderão pedir ajudar ou tirar dúvidas com os mais sêniors, ou com quem souber e puder ajudar! Posteriormente todos os casos serão revisados pelo Consultant, no que se chama post-take. A única diferença entre os níveis nesse ambiente acredito que varie de hospital para hospital. Como forma de exemplo como ocorre onde eu trabalho:

FY1:

Não possuem nenhum page específico durante o plantão na MAU. Fazem as admissões somente.

SHOs (segundo nível):

Os SHOs no plantão da MAU no meu hospital além de admitir os pacientes ficam em posse de um page especifico que recebe os encaminhamentos da emergência e do GP. Isso significa que todo paciente que será internado após ser avaliado pelos médicos do A&E, deve ser referenciado antes que a admissão seja aceita. Na prática, quando você está com esse page você não recusa nenhum paciente, em geral você aceita todas as referências (principalmente porque o paciente foi visto por um Consultant no A&E, e não será você que vai definir que o paciente não precisa de admissão). Com as referências pelo GP a história já é um pouco mais nebulosa e requer um pouco mais de traquejo para saber o que é uma referência válida ou não.

“Aceitar um paciente” nesse sentido significa receber a ligação onde o médico da emergência irá te passar os detalhes dos casos, os exames já feitos ou já solicitados, e os dados mais importantes a serem considerados durante a admissão. O médico com o page então “aceita” o paciente e coloca o nome do paciente no quadro de pacientes esperados pela emergência. Essa função só não significa cegamente aceitar todos os pacientes pois existem algumas coisas específicas. Um paciente com dor abdominal pode ser um caso de Clinica Médica, ou pode ser um cólon perfurado que só pode ser admitido ser for visto por um cirurgião. Uma insuficiência renal pode ser uma ureterolitiase requrendo cirurgia urológica de urgência, e não somente um paciente com infeçcão urinária e lesão renal aguda associada. Portanto quando você “recebe” um encaminhamento, é importante determinar pela história que você recebe pelo telefone ou se certificar que o médico do A&E prestou atenção aos detalhes necessários (essa habilidade é algo que você aprende com a prática, e é uma das coisas importantes no dia-a-dia da Medicina e na relação com outras equipes).

Com relação às referências recebidas dos GPs, você recebe uma ligação diretamente do GP de plantão out-of-hours (o GP em si não desempenha essa função habitualmente, sendo uma espécie de plantão de GP disponível) que passa a história de um caso que ele acredita que precisa de avaliação hospitalar. Como o sistema no UK é bastante centrado no GP, é esperado que ele resolva algumas dessas situações a nível ambulatorial. Um paciente com crise de asma por exemplo, não precisa necessariamente ser avaliado no hospital. Por outro lado, pode ser um paciente que venha a deteriorar e precisar de internamento em UTI/CTI. O GP liga então para você que “autoriza” que o paciente venha para o hospital, e nesse caso o paciente vem direto para a MAU. Esses pacientes ao chegarem no hospital serão avaliados especificamente por você, que aceitou a referência.

No início dos plantões provavelmente a sua tendência será aceitar todos os pacientes encaminhados pelo GP. Com o tempo você perceberá que aceitar os pacientes sem critérios pode ser prejudicial. Você precisa se certificar por exemplo que o GP viu o paciente pessoalmente, ou que ele se atentou a critérios importantes de gravidade. Ou enquanto você está no telefone com o GP você pode abrir o sistema do paciente para ler cartas de alta de internamentos passados daquele paciente. Novamente, esse traquejo ganhamos com a experiência.

De forma geral, “segurar” esse pager é um pouco estressante, quebrando bastante a continuidade das admissões que você ainda continua a fazer. No meu hospital pelo menos existem 2 SHOs na MAU sempre, então a cada 4 horas uma pessoa diferente fica em posse deste pager durante o plantão.

OBS: Essa forma é como ocorre no meu hospital, e cito estes exemplos para ilustrar as obrigações de cada nível. É bem provável que outros hospitais tenham estruturas e esquemas de plantão diferentes, ainda que acredito que sejam em linhas semelhantes.

Registrars (terceiro nível):

O registrar de plantão na MAU além de estar realizando as admissões, e estar de certa forma gerenciando os casos mais graves, fica também por vezes responsável por cobrir outra área do hospital (HDU por exemplo). Além disso alguns pacientes que estão sendo admitidos através da A&E mas estão mais graves, precisam ser absorvidos pela equipe da MAU antes da transferência completa se dar para que assim a equipe da A&E possa dar vazão à “porta”. Em geral nesses casos o Registrar vai admitir o paciente pessoalmente na emergência.

O plantão para o registrar na MAU é um pouco corrido, e em geral eles passam pouco tempo na MAU em si, pois tem que gerenciar outras coisas em diversas regiões do hospital. Na minha experiência sempre que precisei do suporte dos registrar durante o plantão com casos mais graves eles estavam sempre disponíveis, e não é esperado do SHO conduzir um caso mais complexo sozinho sem qualquer tipo de auxílio.

Night Shifts

Os plantões noturnos variam de acordo com o hospital. Existem hospitais que o FY1 de plantão noturno fica responsável pelos mesmos jobs que ele desempenha durante um longday entre 5:00-9:45pm. Em outros hospitais por exemplo não tem FY1 de plantão noturno, sendo essa função então desempenhada pela equipe de emergência (HECT team) que compõe o plantão da noite.

No meu hospital a HECT team é composta por um número de enfermeiros especialistas que compõe a equipe de resposta rápida da noite. Em caso de intercorrências ou pequenas pendências, essa equipe que é chamada às enfermarias para lidar com qualquer coisa. Em caso de necessidade, o registrar de plantão noturno cobrindo o back of the hospital (que a esse ponto do texto você já deve ter entendido que corresponde às enfermarias) pode ser chamado para realizar uma avaliação do paciente. Em geral o plantão noturno para o registrar também é bastante corrido.

No meu hospital os SHOs durante o plantão noturno continuam a realizar as mesmas atividades da MAU que são desempenhadas durante o dia. Os SHOs portanto continuam durante toda a noite e a duração do plantão, de 9:00pm até 8:00am, na MAU admitindo os pacientes e recebendo os encaminhamentos de A&E e GP através do telefone. A equipe da noite é reduzida, e portanto o plantão costuma ser um pouco mais pesado que durante o dia. Imagino que em alguns hospitais o SHO do noturno cubra a enfermaria junto com o FY1, fazendo as mesmas atividades de um longday também.

Para nós brasileiros uma diferença muito grande do plantão noturno é que você é esperado sim a continuar trabalhando durante toda a noite. Se você estiver cobrindo a MAU, por exemplo, existirão pacientes chegando o tempo todo e portanto precisando de admissão. O hospital não te pagará para dormir após as 03:00am e dividir horário na madrugada com colegas. Isso corresponde a uma coisa bastante diferente do que no Brasil e algo que precisamos nos adaptar.

Além disso em geral os plantões noturnos na escala vem em blocos. Você portanto passara 2-3 meses sem dar qualquer plantão noturno, e ao final deste período irá emendar 1 semana dando plantão noturno 4 dias seguidos, com outros dias na MAU. Na minha escala esse período mais caótico é de 2 semanas, com plantões noturnos (2 séries de 4 dias de plantão noturno) intercalando com dias normais na MAU. Como ocorrem periodicamente em bloco essas semanas são as mais odiadas por todos na escala, por outro lado só acontecem de tempos em tempos. A depender do hospital, da quantidade de médicos, essa “semana” pode aparecer uma vez por mês, uma vez a cada 6-8 semanas, etc. (você verá abaixo que estar nessa escala corresponde a um banding com aumento salarial de 50%; existem sim médicos que não entram nessa escala de plantão e só trabalhando Seg-Sexta 9:00-5:00, mas só se isso for acertado quando você for contratado e o seu salário será significativamente menor).

Não gosto de dar plantão. Todo medico é obrigado a entrar na escala de plantões?

Uma coisa importante é que chegando no UK e trabalhando como SHO na escala de plantões, entramos de cabeça na escala de plantões sem ter passado um ano anteriormente como FY1 aos poucos nos acostumando com as pendências no hospital e etc. Por essa razão eu recomendo, e seria o ideal, um período de shadowing antes de iniciar os plantões sozinhos. A entrevista e a oportunidade ideal para questionar sobre a disponibilidade de shadowing. Você pode no final da entrevista perguntar aos médicos que estão te contratando se eles oferecem um período de shadowing para on-calls antes de entrar na escala, visto que você não se sente confiante de assumir de inicio os plantões antes de entender como funciona o sistema. Na maioria das vezes a dificuldade e operacional e não de conhecimento medico técnico. No meu caso eu fui em 1 plantão noturno de enfermaria com outro medico, e 2 plantões de final de semana, antes de assumir os plantões sozinho. Isso foi um diferencial muito grande e me deu muito mais confiança.

OBS: Muitas vezes “não gostar de dar plantão” significa ter medo de dar plantão e se tornar responsável por pendências, e isso em geral acontece primariamente por falta de experiencia. E importante notar que os plantões são uma das oportunidades de maior aprendizado no dia a dia da enfermaria, e portanto eu recomendo fortemente tentar vencer essa resistência inicial em se expor a essas situações. Eu diria que 90-95% de todos os médicos enfrentam um certo nível de ansiedade nos primeiros plantões, e isso passa. Dar plantão na forma como ocorre no UK (ser responsável por diversas enfermarias ao mesmo tempo) e um pouco diferente como ocorre no Brasil, e gerar uma certa ansiedade e completamente normal. A maioria dos médicos mais sêniors que resolvem as pendências mais graves do hospital começaram com plantões de FY1 ou FY2.

Qual a diferença de salário se não estiver na escala de plantões?

A diferença é bastante significativa. Em geral, um emprego sem oncalls/out-of-hours é de 9:00am-5:00pm e o salário base é de £32.000/ano que se converte após os impostos em £2,107/mês. Esse salário não é ruim, correspondendo a 60% mais que o salário mínimo no Reino Unido. Pra uma pessoa que mora sozinha, é o suficiente para aluguel e gastos diários, talvez não o suficiente para economizar e juntar dinheiro todo o mês. Diria que não é um salário suficiente para sustentar mais de uma pessoa no UK.

Se você entrar na escala de plantão, que geralmente envolve a mesma quantidade de plantão para todos (uma média de menos de um long day ou final de semana a cada 2-3 semanas com um período de night shifts a cada 2 meses) você vai receber um salário 50% maior, de £48.000/ano o que fica em torno de £3,000/mês. Esta quantia por outro lado é mais que duas vezes e meia o salário mínimo, e vivendo confortavelmente dá pra juntar no mínimo £500/mês. Diria que uma economia de £1000/mês é uma quantia que dá pra se economizar com gastos racionais. Esse salário é na minha opinião o suficiente para sustentar 02 pessoas, mesmo que em cidades caras como Londres.

OBS: É claro que essas estimativas todas dependem muito do seu estilo de vida!

Os plantões são tranquilos?

Eu diria que os plantões em geral variam bastante, mas pessoalmente hoje vejo que tendem a ser melhores do que eu imaginava. Alguns serão bem difíceis, com muitos pacientes graves, outros serão tranquilos sendo possível você nunca ser chamado para fazer nada. De uma forma ou de outra é algo que vai ficando mais fácil e natural com a experiência. Mesmo os médicos britânicos tem dificuldades quando começam a dar esses plantões, e diria que nós estamos tão preparados quanto eles para lidar com todas essas coisas. Novamente se torna uma questão de se adaptar a um sistema no ínicio é completamente novo para quem vem de outro país.

Em linhas gerais uma coisa muito importante é que nos plantões o suporte da equipe é o que faz toda a diferença. Nos plantões que fiz até hoje os registrars que estavam comigo eram sempre muito solicitos, me ajudando com qualquer dúvida que tinha. No começo acho inclusive que fazia perguntas mais simples do que precisava, mas eram condutas e costumes que diferiam muito da minha prática no Brasil (prescrever uma Gentamicina por exemplo, ou avaliar uma gasometria através dos íons H+ e não do pH). Hoje já me sinto confortável para resolver algumas coisas sozinhos, além de oferecer ajuda ao FY1 sempre que possível. Isso também se torna uma coisa que traz bastante satisfação, e no último plantão que fiz apesar de não ser chamado nenhuma vez para as enfermarias me prontifiquei a ajudar o FY1 com a infinidade de tarefas que ela tinha.

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Em caso de qualquer feedback também via e-mail (revalidacaomedicauk@yahoo.com) estou aberto para dúvidas e sugestões.

Grande abraço!

Um comentário em “On-Calls: Tipos de plantões, responsabilidades e os diferentes níveis

  1. Caro Thiago, as informações postadas nesse site valem ouro. Agradeço por cada palavra escrita! Por favor, continue nos informando e contando o seu processo, pois isso nos motiva cada vez mais.
    Obrigado!!

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