Essa postagem, assim como muitas outras por aqui, acabou saindo um pouco mais longa que o esperado. Ao invés de deixar o resumo ao final do texto, deixarei os pontos e reflexões mais relevantes antes dos relatos completos do dia. Quem tiver interesse nas experiências que tive e o que achei com relação ao que esperava sobre trabalhar no UK, sinta-se a vontade para ler abaixo!

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Resumo:

1 – Trabalhar como médico no UK é bastante desafiador, provavelmente mais do que você imagina. A adaptação ao sistema, entender como realizar todas as tarefas na equipe sem deixar uma carga maior para os seus colegas, é algo que leva a tempo, e os primeiros dias serão de constante perguntas e pequenas frustrações. É importante não subestimar essa transição, se preparar da melhor forma possível para isso, para garantir segurança sua e dos seus pacientes no processo. Isso pode significar entrar em um emprego de FY1 inicialmente, ou quem sabe procurar um clinical attachmment, ou fechar junto com o seu empregador um shadowing antes do inicio das atividades. Não vale a pena iniciar com muita pressa e assumir responsabilidades que possam causar riscos sérios ao seus pacientes. Conheça os seus limites.

2 – Existe uma série de pequenos detalhes que você precisará aprender. Se você iniciar as atividades junto aos demais no inicio do ano letivo na primeira semana de Agosto, a Black Wednesday, você estará assim como todos “aprendendo no tranco”. Se não, o que é geralmente é o nosso caso, você entrará de paraquedas enquanto os demais membros já estão habituados à rotina. Felizmente, a equipe é bastante atenciosa e compreensiva quanto a isso. Isso não significa que você não sentirá dificuldades, e existe algumas formas de tentar aprender essas coisas antes, ou pelo menos tentar identificá-las antes da sua chegada. 

3 – Separei uma lista em forma de checklist sobre pequenas “habilidades” que me foram necessárias nos primeiros dias e que eu não sabia, que tive que aprender observado ou em 99,5% dos casos perguntando. Como essa lista ficou mais extensa que eu esperava, quem quiser ver por favor CLIQUE AQUI.

4 – O inglês provavelmente será mais difícil do que você imagina. Eu considerava o meu inglês muito bom, mas passo algum sufoco com frequência. Fora alguns olhares tortos, acredito que as pessoas que tem inglês como primeira língua estão acostumados a lidar com isso. Não tem outro jeito se não a prática e o tempo, mas quando você se frustrar com uma tentativa falha no IELTS lembre-se que pior do que a prova é assumir a responsabilidade de médico em uma equipe em outra língua (que a depender do sotaque local complica bastante). 

5 – A carga horária é de fato de 9-5pm em uma semana habitual sem plantões. Você se cansa talvez do mesmo jeito, mas sim você tem a oportunidade de dormir como um ser humano normal. Também a maioria dos plantões são de 8-9 horas, no máximo 12 horas e você nunca tem que trabalhar mais que 12 horas seguidas. Você trabalhará finais de semana, mas possivelmente somente 1 vez no mês.

Ao final desta semana eu acabei comprando pela Amazon o Oxford Handbook for the Foundation Programme. Antes de vir ao UK eu procurava fontes que poderia encontrar informações que me seriam úteis no início, em todo esse processo de transição. Hoje eu acho que o que mais se encaixa nisso é este livro, que você pode encontrar online se procurar direito.

SEGUNDA-FEIRA

Havia sido informado no e-mail para comparecer a enfermaria da Clinical Supervisor, de onde seria direcionado para o inicio das atividades no hospital (ainda não havia recebido induction, algum treinamento ou algo do tipo). Cheguei 30 minutos mais cedo para ter uma idéia do tempo que levaria para chegar ao hospital de trem, a melhor hora de sair de casa, a melhor hora pra acordar, etc. Acabei chegando 30 minutos antes, e acredito que não seja preciso tanta pressa assim. No primeiro dia é importante para pelo menos se habituar aos horários. 

Por conta do horário a minha supervisora, também Consultant da enfermaria, disse que iria participar do handover da manhã e de lá me levaria para a enfermaria. O handover de pacientes consiste na passagem pelos casos da enfermaria, onde os detalhes principais são discutidos entre todos os membros, com as pequenas nuances e os pacientes mais graves são pontuados. Aqueles que passaram pacientes no final da semana dão atualizações, ou outros membros da equipe como enfermeiros, farmacêuticos, dão suas opniões quanto a pacientes em condições de alta, etc. Quando você não conhece muitos, ou nenhum, paciente essas pequenas reuniões são boas oportunidades de ter uma noção boa dos casos. 

De acordo com o acerto na minha entrevista ficaria os seis primeiros meses em Care of the Elderly (geriatria) e os outros 6 meses em Endocrino (meu emprego é um ano de Clinical Fellow em General Medicine), no entanto hoje pela primeira vez fui informado que ficaria em Respiratory Medicine inicialmente (por 6 meses? Ainda não sei). Hoje excepcionalmente fiquei em Renal Medicine, mas a partir de amanhã já vou para outra enfermaria. Como o emprego não é um training job, e porque o coordenador de escala fica constantemente fazendo um malabarismo entre os médicos, é muito comum ter uma escala de General Medicine um pouco inconstante com relação a que enfermaria você estará cobrindo. 

Após o handover os Consultants ficaram em seus escritórios (no caso desta enfermaria, cada uma tem uma estrutura diferente), e os pacientes foram divididos entre os júniors presentes (eu, um FY2 e um IMT2/CT2) para ir atrás dos jobs determinados no handover. Dentre eles estavam coisas como: checar como estava uma paciente que deu entrada com edema agudo de pulmão secundário a síndrome coronariana, avaliar o resultado de ressonância de um paciente, avaliar se houve melhora dos marcadores inflamatórios de uma paciente em uso de antibiótico e avaliar possibilidade de escalonar o antibiótico. 

Inicialmente é fácil se sentir perdido. Mesmo com o login em mãos, não sabia exatamente o que deveria fazer e tive que fazer inúmeras perguntas aos outros membros da equipe para entender exatamente como era a dinâmica da enfermaria no UK. Algumas das coisas que são claras pra nós no Brasil em outro país não parece tão simples assim, e é preciso que alguém te diga exatamente alguns detalhes. Por exemplo como se estruturas uma evolução de enfermaria? Devo escrever no prontuário e assinar depois? Onde faço a solicitação de exames, onde evoluo os pacientes, sou eu quem examina os pacientes pessoalmente, o quanto de informações devo colocar na evolução, como e que quesitos do exame físico eu escrevo na evolução, como fazer encaminhamento de um paciente para outra especialidade, como pedir exame de laboratório. Enfim, são literalmente diversos detalhes que você vai ter que descobrir como fazer. Devo dizer que fiquei surpreso com a abertura de todos os membros da equipe, sempre muito solicitos em tirar as dúvidas. (PARA QUE NÃO CLICOU NO LINK ACIMA SOBRE O QUE SÃO ESSES DETALHES, AGORA É A SUA CHANCE).

Fiquei responsável por 3 pacientes. A primeira foi a senhora com EAP secundário a SCASST. Se você não sabe o que essas siglas significam espere para quando chegar no UK, onde para nós brasileiros as diversas (milhares) siglas são um problema grande pois não a usamos em português. No caso especifico do meu hospital evolução é feita a mão e entender o inglês é o menor dos problemas perto de decifrar a escrita quase ilegível da maioria das evoluções. Acredito que uma pessoa local tenha maior facilidade em decifrar o que está escrito pois “completa” com o inglês que tem na mente, já nós temos que no meio do caminho traduzir e isso é difícil. Tive dificuldade de entender muitas coisas por conta da grafia. 

Conversei com a paciente, a examinei e depois escrevi a evolução no prontuário. Tudo é feito a mão, existe uma estrutura proposta a ser feita e segundo a consultant algo por volta de meia página (depois vi que em alguns pacientes era muito mais rápido, por vezes só um “no issues, send Home if exams are normal”). Discuti a prescrição com o CT2 (o médico mais sênior na enfermaria, apesar de que os Consultants estavam nos escritórios logo ao lado da enfermaria). A forma como os médicos descrevem o exame físico é bem específica, e é algo que vale a pena olhar antes. Assim como no Brasil, é importante escrever tudo que você discutiu. Houve um momento em que foi decidido reduzir a dose GTN (essas siglas são soltas para você e você deve tentar entender, no caso significa Tridil). A enfermeira me alertou que o faria, mas me cobrou que escrevesse na evolução, algo que eu ainda não tinha feito. 

Outros 2 pacientes foram mais simples. Um senhor com história de confusão com investigação toda normal que por sintomas neurológicos fez uma ressonância para excluir dano isquêmico, se exame normal receberia alta. Outra senhora em uso de Vancomicina e PCR em queda. Para esta paciente eu tive que procurar no sistema para entender a história dela. O sistema apesar de ser muito complexo e difícil de manejar, possui todas as informações do paciente, resultado de todos laboratórios que ele ja fez (em internamentos passados em qualquer hospital do NHS ou solicitados pelo seu GP ou consultant ambulatorialmente), evoluções escaneadas de internamentos passados. Por isso você pode demorar algum tempo para entender a história, mas existe informação suficiente. Fiz uso disso para escrever um relatório de interconsulta para avaliação com o Cardiologista de um paciente, e para fazer o relatório de alta do paciente da ressonância. 

Após resolver as pendências dos meus pacientes (pude discutir todos os passos da conduta com o médico CT2 e eventualmente com a Consultant responsável pelo paciente), ajudei o CT2 a resolver algumas pendências. Os exames de laboratório a serem feitos a 7:00 da manhã seguinte (que já estão prontos durante a visita que ocorre por volta das 9:00-10:00) devem ser solicitados no dia anterior ainda, então portanto esses devem ser feitos em um papel especifico, cada um recebe uma etiqueta com dados do paciente (disponível na pasta do prontuário do paciente). O FY2 fez a coleta de sangue, já que os exames de laboratório feitos a tarde quando o flebotomista já passou na enfermaria são feitos pelos médicos, e eu pedi para que acompanhasse para observar os instrumentos que usaria. Já estava ciente que no UK essa era uma tarefa muitas vezes feita pelo médico, e valeu a pena treinar um pouco no Brasil antes de vir para cá. 

Ao final as atividades as 17:40, um pouco depois do horário oficial e termino as 17:00, estava um pouco aliviado com o fim das atividades e percebi que não há outra forma de tirar as inúmeras duvidas que você terá antes de começar o seu trabalho. Ao final do dia já me senti mais confiante, amanhã não estarei mais perdido e aos poucos espero conseguir acompanhar as atividades com tranquilidade. 

TERÇA-FEIRA – Enfermaria de Respiratory Medicine

O meu segundo dia foi na enfermaria de pneumologia, onde ficarei por um tempo ainda indeterminado. Ainda existem algumas pendências (o cartão de acesso para alguns lugares, login os portais que preciso) o que causa alguns problemas pois tenho que pedir o login para os outros colegas. No início esse processo de conseguir cartões, logins, pode ser muito estressante se você chega e já deve se inserir no serviço “no tombo”(o que acontecerá se você vier do Brasil direto para o trabalho). 

Cheguei na enfermaria, me apresentei aos colegas. Ficou decidido que ficaria junto ao Consultant na hora do Ward Round, enquanto eles evoluiriam os pacientes dos Consultants que passam em outros dias. Dessa forma, eu conheceria estes pacientes e a partir daí poderia prosseguir com a conduta deles mais facilmente. Rapidamente o consulta chegou e deu inicio ao Ward round, onde através de um computador posso acessar os sistemas com resultado de exames, radiografias, e a partir dai ir discutindo os casos. O computador fica estacionado, ou você vai atrás dos quartos dos pacientes. 

Eu não conhecia nenhum dos casos e isso não era esperado de mim, pois não vemos os pacientes antes do Ward Round para passar para os chefes como ocorre no Brasil. Os casos muitas vezes são novos e no momento o consulta vai lendo as notas dele e de outros colegas, raciocinando sobre as pendências do caso e decidindo sobre as condutas. Após isso o consulta vai com você pessoalmente ver o paciente, examiná-lo e depois ele escreve a conduta que será feita para a mesma. É nessa hora na decisão do plano que cabe a você anotar as tarefas a serem feitas posteriormente, o que ocupará a sua tarde toda praticamente no somatório de todas as tarefas para todos os pacientes. 

SABER COMO FAZER UMA LISTA DE JOBS ADEQUADAS É UMA HABILIDADE IMPORTANTE NO DIA-A-DIA DA ENFERMARIA. ESSAS FORAM LISTAS QUE EU FIZ DURANTE ESSA SEMANA.

Essas tarefas incluiram então coletar sangue para hemocultura, fazer uma gasometria arterial e decidir clinicamente a partir dela sobre a alta de um paciente, coletar laboratório (por ser após a passagem dos flebotomistas isso fica a responsabilidade dos jr. doctors), pedir exames de imagem, avaliar resultado de exames pendentes, etc. Como estou no inicio das atividades ainda não conseguia realizar as prescrições e relatórios de alta, mas isso também entra na lista de responsabilidades. É importante então ter um caderno de anotacoes, onde você realizará uma lista de tarefas para cada paciente em formato de check-list. Essa lista de tarefas também serve como uma lista muito realista sobre coisas que, se você não sabe fazer ainda, é bom que aprenda logo. 

No meu caso a quantidade de tarefas era muito grande com um total de 7 pacientes, essas tarefas foram então divididas com os outros colegas (1 CT1, uma FY1 e uma registrar/ST). Por vezes no meio do dia todos se reunem para passar as tarefas de todos os pacientes, e as pendências são resolvidas ali na hora mesmo ou são divididas. Dessa forma fica equitativa as atividades e todos podem sair no horário adequado. 

Ao final da tarde chegou uma paciente e eu fiz a admissão desta. É importante prestar atenção ao prontuário e ao que deve ser incluído de informação, pois existem uma série de coisas especificas ao prontuário do UK e isso varia de hospital para hospital como: ficha de avaliação de risco de TVP e indicação de profilaxia, risco social (cargo da enfermagem), copiar a prescrição de casa do paciente, etc. Algumas dessas informações estão presentes no prontuário eletrônico e é algo que você pode buscar. 

Algumas das tarefas na enfermaria envolvem um trabalho muito burocrático: procurar a ficha do paciente com o sticker para colocar no prontuário (ou imprimi-lo se este não estiver na sua pasta), realizar a solicitação de laboratório e enviar ao laboratório, escrever o pedido do ECG e ligar para o serviço do ECG. Além disso existem algumas dificuldades para saber exatamente que documentos você precisa assinar, que áreas do prontuário cabe a você completar. Então no inicio como disse sobre o dia de ontem, você terá diversas dúvidas que a única forma de tirá-las será perguntando a algum de seus colegas, e todos tem sido bastante bem receptivos. Todos eles passaram  por esta mesma fase no início, e também sempre que mudam de hospital para outro com rotinas diferentes. Acredito que os brasileiros que começam no dia 7 de Agosto ou próximo disso, por ser a data oficial de inicio do “ano letivo”, se misturará com os novos júnior doctors que estão em adaptação o que pode diminuir a discrepância entre você e os outros colegas. 

QUARTA-FEIRA

Hoje no terceiro dia cheguei um pouco mais cedo pra me certificar quais senhas eu tinha disponível, e mandei um e-mail para a advisor para que ela certificasse que conseguisse as outras e os treinamentos de sistema restantes assim que possível. Não é muito recomendado que se chegue antes do horário proposto, afinal você não é pago pra isso. Porém, acredito que no começo quando você ainda está aprendendo a mexer no sistema, eu tenho achado interessante chegar uns 20 minutos antes pra resolver as minhas pendências antes de começar com os outros colegas. 

Os pacientes com que fiquei hoje para fazer a review foram os mesmos de ontem. Quando você participa de um Ward round com o consulta e os seus pacientes, no dia seguinte você terá o beneficio de conhecer todos os casos e geralmente a divisão dos pacientes entre os colegas (quem irá evoluir quem) é feita através dos Consultants, cada um fica com o paciente de um Consultant ou quaisquer divisões semelhantes. Fazer a review de um paciente significa pegar o seu prontuário, ver novas informações, ver no sistema novos resultados de exame de laboratório ou imagem, anotar no prontuário as informações relevantes e tomar as condutas relativas ao caso seja de acordo com a orientação do Consultant ou em resposta as coisas novas que surgiram. Sem o Consultant in loco você pode tirar dúvidas com colegas, mesmo com os FY1 para as coisas mais burocráticas, ou com os registrar para as dúvidas mais clínicas. 

Como havia discutido ontem com o Consultant, alguns pacientes estavam somente com pendências de exames para receber alta. Como FY2 você tem autonomia para dar alta a um paciente, se tudo estiver de acordo com o plano escrito. Na prática, é interessante que você se certifique que discutiu todos os pontos com o Consultant. Houve um caso de um paciente que deveria dar alta se a angiotomografia estivesse normal, mas o resultado veio com uma pequena alteração. Achei melhor esperar o contato com o consultant antes de dar alta, o que segurou o leito da paciente um pouco (o que te torna sujeito a pressão das enfermeiras e ward managers para liberar leitos). Não recomendo tomar qualquer decisão que você não esteja seguro e isso é algo que muito de nós já sabemos, mas em outro país como imigrante acho que isso é ainda mais importante.

Como muitos pacientes meus foram de alta, pedi ajuda a uma colega para me ensinar a preencher a prescrição e relatório de alta. É interessante se informar exatamente sobre como funciona a alta no seu serviço. No meu hospital por exemplo, após completar o relatório de alta você deve anexar a etiqueta do prontuário do paciente na ficha da farmacêutica e sinalizá-la que o paciente está de alta, assim ela imprimirá a receita que você fez e entregar ao paciente. Tomar uma conduta proativa em entender como essas coisas funcionam lhe traz uma resposta positiva dos seus colegas, que estarão ocupados com as suas próprias tarefas e irão preferir que você tente aprender como fazer as coisas para ajudar ao invés de somente pedir favores. 

Em determinado momento fui chamado para avaliar uma paciente minha que estava apresentando espasmos musculares e crises álgicas secundárias a um quadro em avanço de esclerose múltipla. Como o prontuário do Reino Unido possui todas as fichas anteriores, prescrições, cartas de encaminhamento e de alta, é possível ter uma ideia interessante sobre o caso do paciente se você souber onde procurar. Encontrei cartas de referência da “enfermeira de esclerose múltipla” da paciente (no NHS existem diversas enfermeiras especialistas, que cuidam dos pacientes a nível ambulatorial e servem de fontes valiosas de informação). O telefone dessa enfermeira estava disponível, liguei para ela mas a mesma não estava na enfermaria, então anotei para a lista de jobs do dia seguinte “ligar para a MS nurse e definir a conduta”. O meu consultant ficou satisfeito pois ele é um consultant em Pneumologia, e não tem enfermaria Neurologista no hospital onde trabalho. Mais uma vez, tomar uma conduta proativa adianta as coisas e facilita o seu relacionamento com os profissionais. 

Como esperado tenho notado muita receptividade dos pacientes, e em poucos momento senti que a nacionalidade diferente afetou alguma coisa na relação com estes ou com outros colegas e membros da equipe. De certa forma, acho que a forma mais pessoal com que tratamos os pacientes pode ter um valor muito grande na sua experiência no NHS. Tenho notado muitos pacientes indo embora da enfermaria de alta pedido, e tudo é levado de forma profissional pela equipe. Em duas ocasiões conversando com o paciente foi possível reverter a situação e estes mantiveram-se na enfermaria, o que eu acredito que não teria acontecido se toma-se a conduta padrão de “tudo bem, assine o formulário de alta pedido”. Nesse caso em especifico isso foi extremamente importante considerando o diagnostico de malignidade que veio posteriormente nos resultados de um desses pacientes. 

QUINTA-FEIRA

O quarto dia foi um dia com menos coisas diferentes, e vou me ater ao que pode servir de informação adicional. 

Recebi o meu treinamento no sistema de prescrição e portanto um login próprio. O sistema de prescrição é o mesmo de alta e então era muito importante que isso estivesse pronto para que eu pudesse ajudar os colegas na enfermaria de forma adequada. Ainda estava a cada dia aprendendo alguma coisa nova (como solicitar um determinado exame de imagem, como pedir uma avaliação com especialista, que materiais usar para determinado procedimento) e dava pra perceber que a cada dia as coisas iam ficando mais fáceis por isso. 

Na hora do ward round passamos pelo pacientes com o mesmo consulta de dois dias atrás, e segundo a divisão da enfermaria ficarei boa parte dos dias acompanhando todos os pacientes desse consultant. O ward round foi muito mais fluido, uma vez que você entende os processos, o que você precisa fazer, que informações serão necessárias (e isso leva muito pouco tempo) se apresentam muito mais facilmente. 

Uma das pacientes que vi com o Consultant era uma senhora de 80 e poucos anos com DPOC com exacerbação leve, já em uso de antibiótico e nebulizações, que provavelmente receberia alta no dia seguinte. No período da tarde essa paciente desenvolveu uma taquicardia significativa (FC 180bpm), pelos sinais de irregularidade no exame físico detectamos possibilidade de FA (secundária ao estresse respiratório? Infecção? Paciente sem histórico cardiovascular). Sem o Consultant presente você pode tomar a conduta em conjunto aos seus colegas e de acordo com os direcionamentos que foi dado na passagem da visita, mas obviamente esta paciente não seria mais uma possibilidade de alta posteriormente. Inicialmente evitei manter a nebulização para tentar controlar a FC da paciente, introduzindo uma medicação para controle de ritmo. 

Como no dia seguinte seria um bank-holiday com escala reduzida no hospital todo, ao final do dia da enfermaria todos os júnior doctors da enfermaria (uma FY2, uma CT1, uma registrar, um FY1 e eu) se reuniram para fazer as lista de pacientes que: precisariam ser reavaliados no dia seguinte e no final de semana, os pacientes mais graves que o consultant passando enfermaria deveria avaliar, os pacientes admitidos que deveriam ser avaliados pelo consultant e quais poderiam receber alta no dia seguinte (a depender de exames de laboratório). Essa passagem de casos é muito importante, pois organiza toda a dinâmica da enfermaria para o final de semana. 

SEXTA-FEIRA – sozinho na enfermaria

A sexta-feira da minha primeira semana no UK foi um Bank Holiday, e por isso a enfermaria funcionou em esquema de feriado com equipe reduzida. Fui informado no dia anterior que estaria sozinho na enfermaria, com um consultant passando a visita dele (e na oportunidade veria pacientes “sick/doentes”), um registrar para me ajudar em intercorrências, e um FY1 para me ajudar em trabalhos manuais de FY1. De qualquer forma estava apreensivo porque ainda estava aprendendo a mexer no sistema, e não tenha dúvida que se você aplicar para um emprego nível SHO você vai estar sujeito a esse tipo de situação (ou talvez ter que dar um plantão on call cobrindo muitas enfermarias se a equipe estiver reduzida) talvez ainda nos seus primeiros dias. 

Passei para pegar a lista de pacientes e para minha surpresa a equipe me passou o caso de que a única paciente doente havia sido a minha da noite anterior, que desenvolveu uma FA aguda completamente estável quase assintomática durante uma exacerbação por infecção de DPOC. A paciente ainda estava em ritmo de FA com resposta ventricular alta, mas sem sintomas. Por conta da FA não havia feito a nebulização, evitada para não piorar a taquicardia. 

Cheguei na enfermaria e tentei adiantar alguma coisa da lista de trabalhos, mas muitos dependiam de resultado laboratórios que são colhidos após as 9:00 quando os flebotomistas chegam, e então com a chegada do consultant começamos a rever os pacientes e depois terminaria o resto dos jobs (referentes a 10-12 pacientes). A visita do Consultant durou 2-3 horas, e depois disso fiquei sozinho na enfermaria. A passagem dele resultou em algumas tarefas para duas pacientes novas admitidas na noite anterior, ele pessoalmente avaliou alguns pacientes o que significava que eu só precisava ver se estes ainda teriam alguma pendência. 

Por conta da minha paciente anterior que não cessava o ritmo de FA de alta resposta, a equipe de resposta rápida instalou um monitor que transmitia o ritmo da paciente para eles e fui notificado umas 2-3 sobre a FC elevada da paciente. Sendo FA fui pessoalmente contar a FC em 60s, que girava em torno de 150bpm. Não entrarei em detalhes clínicos para não alongar o texto, mas entrei em contato com o registrar de suporte para essa paciente. É muito importante identificar quais pacientes precisarão da avaliação do Registrar o quanto antes, visto que tomar condutas de pacientes mais graves sozinho pode ser considerado uma conduta “non-safe”. Preparando o caso e tomando as medidas iniciais, é sempre bom chamá-lo e neste caso ele leu as notas do paciente, examinou a mesma e voltou para discutir comigo a impressão dele.

Durante o horário do almoço a registrar da pneumo responsável pela enfermaria durante os dias normais da semana passou para perguntar se eu precisava de ajuda e evoluiu comigo os pacientes (isso não era obrigação dela e ela estava na escala de outra enfermaria). Isso envolveu a organização das pendências de todos os pacientes em uma lista fácil de identificar e que fomos completando: buscar resultados, alterar prescrição, pedir e avaliar RXs, coletar laboratório de pacientes que precisariam reavaliação ainda naquele dia, etc. Isso foi importante nesse dia porque: permitiu-me identificar quais seriam os trabalhos que poderia pedir ajuda do FY1 de sobreaviso para fazer, e quais pacientes eu teria que passar para a equipe que ficaria responsável pelos pacientes mais doentes após eu ir embora as 17:00. 

A própria registrar incentivou que eu parasse para almoçar visto que já eram quase 14:00. Veja que nesses casos como em oncalls, onde você está sozinho e faz o seu próprio horário de almoço, é muito fácil você se deixar levar pelo horário e pela ansiedade em terminar as tarefas o quanto antes e não parar e almoçar, ou beber água, etc. O NHS recomenda uma pausa de 10 minutos a cada 4 horas, e eu não preciso nem dizer a importância disso, principalmente em situações de estresse. Importante então se organizar para respeitar esses horários, o que vai acabar trazendo um beneficio e melhor julgamento para fazer as tarefas necessárias. 

Nesse dia eu percebi a importância em saber quais são os trabalhos típicos para o FY1, e como delegá-los para eles de forma adequada. Os pacientes que precisariam de acesso venoso, coleta de sangue, prescrição de fluídos, iriam tomar muito do meu tempo e seria literalmente impossível acabar toda as tarefas sozinho se parasse pra fazer essas pequenas coisas. A FY1 passou na enfermaria, mas o pager dela estava disponível caso perguntasse a enfermeira, perguntando se havia alguma coisa pra ela fazer. Por isso é importante identificar antes essas tarefas para que na hora que eles passarem você possa direcionar aonde você está precisando de ajuda. Da mesma forma o FY1 tem tarefas em outras enfermarias, e não vai ficar ajudando você o tempo inteiro. 

Outra paciente na enfermaria estava deteriorando ainda que devagar, e a registrar da pneumo me ajudou na condução sobre como passar o paciente para a próxima equipe. A paciente foi para o RX de tórax, voltou e fez uma gasômetria arterial (pedi para a FY1) e então antes de ir embora passei o caso para o registrar ficar atento na possibilidade da paciente deteriorar. Importante sinalizar que está paciente estava identificada como “alta se manter melhora clínica”, não só ela não teve alta como era uma das pacientes mais doentes na enfermaria. No UK assim como em qualquer lugar do mundo é importante não confiar cegamente em relatórios escritos por colegas ou no prontuário, é preciso fazer como o registrar de sobreaviso sempre: ler a história, examinar a paciente e tomar a sua conduta. No UK, na condição de imigrante ainda inexperiente com o sistema, acho que por motivos legais é ainda mais importante esse tipo de conduta mais segura. 

Mais uma vez sai mais tarde da enfermaria por alguns motivos. Primeiro pelo que acabei de dizer, e preferi avaliar e reavaliar uma série de pacientes para garantir que não havia deixado nada passar justamente no dia que fiquei sozinho na enfermaria e estava mais exposto a deslizes. Isso acabou sendo importante no meu caso, pois identifiquei uma paciente que poderia ter tido alta após um resultado de AngioTC normal (e a consultant dela havia escrito essa informação em prontuário) e preferi liberar a paciente do que deixar para o dia seguinte, o que não havia nenhuma necessidade, ou passar para o FY1 que havia ficado com muitas outras tarefas minhas e não precisaria tomar mais essa só porque não identifiquei o resultado mais cedo. 

Segundo que precisava deixar organizado as tarefas para o dia seguinte (quem precisaria de exames pelo flebotomista, quem precisaria ser reavaliado, de exames, etc) pois existe uma handover para os pacientes mais graves durante a noite mas durante o final de semana a depender da escala os pacientes só serão reavaliados se você sinalizar na noite anterior, caso contrário eles podem não ser reavaliados pelo colega (na pior das hipóteses serão reavaliados se deteriorarem e a equipe do dia seguinte perceber). Mais uma vez, sair fora de hora é uma questão de falta de experiência e coordenação e principalmente na divisão de tarefas e passagens de caso, só fiz isso por que considerei os prós e contras na minha situação, mas no UK não é nem um pouco recomendando ou incentivado sair depois da hora determinada porque você não é pago para isso. Considerando é claro, que você passou os casos importantes em tempo para as equipes respectivas. 

Espero que esse relato possa ser de ajuda para todos, qualquer coisa estou disponível no e-mail revalidacaomedicauk@yahoo.com. Lembrem-se que o conteúdo postado aqui é fruto de experiências e leituras. É sempre importante checar estas informações e recomendações por conta própria, afinal muitas delas são tem bastante influência pessoal.

Caso possua algum feedback, ou recomendação de algo que possa ter faltado por favor entre em contato!

2 comentários em “Minha primeira semana trabalhando no UK

  1. Olá amigo, sou brasileiro passando pelo mesmo processo, espero que tudo esteja pronto ano que vem!
    O plano é conseguir um CREST, já que não é um posto acadêmico?
    Um abraço!

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